Em Agosto e Setembro, Delfinópolis e a Serra da Canastra entram no período seco.

Os dias ensolarados e de baixa umidade favorecem o acesso a trilhas e a prática do turismo. É também nessa fase que rios e cachoeiras apresentam menor volume, à espera das primeiras chuvas que anunciam a “época das águas”, quando a serra se renova e ganha vigor.
A transição entre seca e águas é um espetáculo natural e, ao mesmo tempo, um momento de alerta. Enquanto os visitantes se encantam com o Cerrado, cresce também o risco de queimadas — muitas vezes criminosas ou acidentais — que impactam a fauna, a flora e a própria economia do turismo regional.
Biodiversidade única e vulnerável
A Serra da Canastra é berço de espécies emblemáticas e, em alguns casos, ameaçadas de extinção. O lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), o tatu-canastra (Priodontes maximus), a onça-parda (Puma concolor), a jaguatirica (Leopardus pardalis), entre outros, compõem a lista de mamíferos catalogados no Parque.
Esses animais respondem de formas distintas ao fogo:
- Alguns se beneficiam temporariamente da rebrota de gramíneas e sais minerais presentes nas cinzas (como o veado-campeiro).
- Outros sofrem diretamente com os incêndios, perdendo filhotes, ninhos e territórios. Um exemplo marcante registrado por pesquisadores foi a morte de um jovem tamanduá-bandeira em 2014 durante queimadas intensas.
Para aproximar turistas e comunidade desse patrimônio natural, a ACAD disponibiliza para download gratuito o guia “Fogo e Fauna da Canastra: Mamíferos do Cerrado”, que reúne descrições, imagens e curiosidades das espécies nativas.
Fogo: vilão e aliado
O fogo faz parte da história do Cerrado há milhares de anos, provocado tanto por raios na estação chuvosa quanto por ação humana. Em condições controladas e em mosaico, pode ser ferramenta de manejo que estimula a germinação de sementes e a floração de espécies como a canela-de-ema (Velloziaceae).
Mas o fogo descontrolado — comum no auge da seca — causa devastação:
- Perda de habitats;
- Redução da biodiversidade;
- Comprometimento de nascentes e matas ciliares;
- Prejuízos diretos à economia do turismo e da agropecuária.
O Manejo Integrado do Fogo (MIF), já em prática no Parque Nacional da Serra da Canastra, busca equilibrar tradição, ciência e conservação. Queimas prescritas em períodos úmidos ajudam a reduzir biomassa seca, diminuindo a força dos incêndios de grande escala.
Turismo sustentável e responsabilidade do visitante
O turista desempenha papel crucial nesse equilíbrio. Algumas atitudes fazem toda a diferença:
- Não acender fogueiras nem jogar bitucas de cigarro;
- Recolher todo o lixo das trilhas e cachoeiras;
- Respeitar a fauna, observando sem interferir;
- Valorizar o comércio local, fortalecendo famílias e produtores que vivem do turismo consciente.
Mais de 150 cachoeiras catalogadas em Delfinópolis esperam pelos visitantes, entre elas os complexos do Vale do Céu, do Paraíso e do Claro. O cenário é único, mas sua preservação depende do comportamento coletivo.
A época da seca é convite à contemplação, mas também um lembrete da fragilidade do Cerrado. Quando as chuvas voltam, trazendo vida às águas e às matas, é a prova de que natureza e turismo podem coexistir — desde que haja respeito e consciência.
📥 Baixe aqui o Guia de Mamíferos da Canastra e ajude a difundir conhecimento e preservação.
📥 Baixe aqui o Guia de Fogo e Fauna no Cerrado e ajude a difundir conhecimento e preservação.
Fontes:
- Bruno, S. F. et al. Fogo na Canastra: Reflexões sobre o Fogo no Cerrado. ICMBio, 2018.
- Berlinck, C. N. et al. Fogo e Fauna na Canastra: Guia de Mamíferos. ICMBio/CENAP, 2025.
Matéria por: Géssica Silva/Gerente ACAD.